2012-10-01

Excelente. Como sempre, aliás. E só Deus sabe o quanto me identifico com este texto.

"Extraordinária, a vida. Um segundo que vira o segundo anterior do avesso, uma palavra que vira a palavra anterior ao contrário. A gargalhada que inverte o fluxo da lágrima. A chicotada e a chaga no mesmo lugar onde a pele já foi beijada. Tudo isto e o inverso disto tudo. A vida cheia de pinos, cambalhotas e vice-versas. Estou sempre surpreendida por estar viva e sentir-me, dos pés à cabeça, uma fonte de humores e emoções, um compromisso em potência com tudo aquilo que há de vir (e o que não vier, ainda bem, deixa espaço livre para vir mais ainda). Um escudo. Uma lança. Um exército inteiro sobrevivendo, hirto, na minha consciência. Um poema que me sai, sem pensar, de cada vez que a vida me revela rimas e métricas inesperadas. Não é que me tenha aproximado da morte, mas sou uma daquelas alminhas pequeninas que, todas as manhãs, ao ver o sol raiar na mesma faixa serena do horizonte e ouvir a inquietação da passarada rasando-me o parapeito da janela, agradece o facto de ter aberto os olhos uma vez mais. Encho o peito de ar, faça chuva ou faça o sol, e a vida apresenta-se-me, em imaginação e desejo, tão inteira, sublime e poderosa que não tenho como dizer-lhe que não e voltar a deitar-me, de costas para o Universo."

{daqui}