2012-10-04

Olhei para a minha linda gata amarelinha e branca de olhos doces e meigos e enquanto ela dormia profundamente na minha varanda solarenga, lembrei-me desta frase:

Por vezes penso que a personalidade dos animais de estimação é um pouco o reflexo da personalidade dos donos.
Se ela é doce e meiga, talvez seja porque nós também o sejamos. Disse isto ao meu filho hoje de manhã. Ele concordou e acrescentou que a cor dela também lhe dá um certo ar de candura. Também, concordei eu.



2012-10-03



"Lar é onde se acende o lume e se partilha mesa e onde se dorme à noite o sono da infância.
Lar é onde se encontra a luz acesa quando se chega tarde.
Lar é onde os pequenos ruídos nos confortam: um estalar de madeiras, um ranger de degraus, um sussurrar de cortinas.
Lar é onde não se discute a posição dos quadros, como se eles ali estivessem desde o princípio dos tempos.
Lar é onde a ponta desfiada do tapete, a mancha de humidade no tecto, o pequeno defeito no caixilho, são imutáveis como uma assinatura conhecida.
Lar é onde os objectos têm vida própria e as paredes nos contam histórias.
Lar é onde cheira a bolos, a canela, a caramelo.
Lar é onde nos amam."

Rosa Lobato de Faria in "O Sétimo Véu"

2012-10-01

Excelente. Como sempre, aliás. E só Deus sabe o quanto me identifico com este texto.

"Extraordinária, a vida. Um segundo que vira o segundo anterior do avesso, uma palavra que vira a palavra anterior ao contrário. A gargalhada que inverte o fluxo da lágrima. A chicotada e a chaga no mesmo lugar onde a pele já foi beijada. Tudo isto e o inverso disto tudo. A vida cheia de pinos, cambalhotas e vice-versas. Estou sempre surpreendida por estar viva e sentir-me, dos pés à cabeça, uma fonte de humores e emoções, um compromisso em potência com tudo aquilo que há de vir (e o que não vier, ainda bem, deixa espaço livre para vir mais ainda). Um escudo. Uma lança. Um exército inteiro sobrevivendo, hirto, na minha consciência. Um poema que me sai, sem pensar, de cada vez que a vida me revela rimas e métricas inesperadas. Não é que me tenha aproximado da morte, mas sou uma daquelas alminhas pequeninas que, todas as manhãs, ao ver o sol raiar na mesma faixa serena do horizonte e ouvir a inquietação da passarada rasando-me o parapeito da janela, agradece o facto de ter aberto os olhos uma vez mais. Encho o peito de ar, faça chuva ou faça o sol, e a vida apresenta-se-me, em imaginação e desejo, tão inteira, sublime e poderosa que não tenho como dizer-lhe que não e voltar a deitar-me, de costas para o Universo."

{daqui}