2011-12-11

mostra-me o teu rosto...

Quando já se percorreu metade da vida toma-se mais consciência da morte. Da individualidade, da fragilidade de cada pessoa num aglomerado de gente. Cada rosto procurando um carinho, um sorriso, uma empatia, um olhar atencioso, de um pouco de tempo. Do teu tempo. Do meu tempo. Tempo para estar, para apreciar, para respirar mais fundo, para ganhar confiança, ânimo.
Aglomerados de gentes com rostos sisudos. Força da idade, dos desgostos, da vida... Estas imagens fazem-me transportar à infância daqueles rostos enrugados e sérios. Imagino os sorrisos rasgados e descontraídos, os olhos brilhantes de felicidade e desejo, os sonhos que o futuro haveria de trazer. Mas o futuro é aquele malandro que às vezes nos prega rasteiras. E a felicidade às vezes faz batota connosco.
Gente solitária no meio da multidão. Divagando nos pensamentos, nas preocupações, em alguma tristeza, mas também em alguma felicidade envergonhada, sorriso contraído. Quando digo que a felicidade é envergonhada, digo-o porque as pessoas têm um certo receio de mostrar que estão felizes. Então encolhem a felicidade, engolem-na, não vá isso despertar sentimentos de inveja nos outros. E assim andam os rostos dos crescidos, carregados e sérios como se isso fosse o protótipo do ser humano adulto perfeito e com juízo.
Deem-me por favor os sorrisos descontraídos das crianças, porque eles ajudam-me a rejuvenescer. Razão tem o Peter Pan quando diz que não quer crescer...